domingo, 6 de julho de 2008

POR QUE É QUE A GENTE É ASSIM ?

Esse texto é um artigo escrito por Ênio Padilha (www.eniopadilha.com.br). Recebi por indicação no orkut. Ele é antigo (de 2002) e pode ser que muita gente aqui já tenha lido, mas acho que a grande maioria ainda não leu.
O texto é longo, mas acreditem, vale a pena ler.
E um pedido: se possível, enviem o link a seus professores e coordenadores de curso. É bom fazer com que os responsáveis pela nossa formação leiam também.

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É na Escola de Engenharia que começa a ser destruída a nossa auto-estima. É na Escola de Engenharia que começa a ser forjado o nosso comportamento autodestrutivo, nosso desprezo pelos valores da própria profissão, nosso desgosto com a nossa própria atividade profissional. É na Escola de Engenharia que nasce a nossa falta de coragem empresarial e essa submissão inaceitável aos caprichos dos clientes.

Engenheiros, Médicos, Arquitetos, Advogados, Agrônomos, Dentistas...

Uma coisa leva à outra: toda vez que, numa conversa qualquer, o assunto “comportamento no mercado” vem à tona acabamos caindo nas inevitáveis comparações de engenheiros, arquitetos e agrônomos com médicos, dentistas e advogados...

Quando me perguntam o que eu acho disso (dessa comparação de profissionais tão diferentes) respondo sempre a mesma coisa: acho que essa comparação é JUSTÍSSIMA.

Se eu, engenheiro, por qualquer motivo, tiver de ser comparado com outros profissionais, acho muito justo que seja com médicos, com dentistas ou com advogados. Afinal temos muito mais coisas em comum do que diferenças. Somos todos prestadores de serviços. Nosso produto (nosso serviço) é altamente especializado e todas essas atividades demandam profissionais com capacidade intelectual diferenciada. Ninguém chega a ser médico, advogado, dentista, agrônomo, arquiteto ou engenheiro apenas por ter um belo par de olhos, uma voz doce, algum dinheiro no banco ou um padrinho influente... A conquista de qualquer um desses títulos demanda qualidades e habilidades especiais, muito estudo e empenho (às vezes até muitos sacrifícios).

Temos, é verdade, muitas semelhanças, quando a comparação é feita no nível da qualificação. Porém, no exercício das profissões e no comportamento empresarial de cada grupo as diferenças aparecem e são enormes. Neste texto concentramos nossas reflexões sobre a formação dos profissionais de Engenharia. No entanto, nossa experiência e a convivência com milhares de arquitetos e agrônomos dos mais distantes lugares do Brasil nos permitem acreditar que os conceitos podem se estender sem problemas também para esses profissionais. Voltemos no tempo.

Voltemos ao tempo em que essa pessoa (que hoje é um engenheiro) tinha seus quinze, dezesseis anos, um ou dois anos antes do vestibular. Esse moço ou essa moça é, muito provavelmente, um dos melhores alunos da sua sala (talvez da escola). É um expoente estudantil, requisitado pelos colegas, elogiado pelos professores, respeitado pelos pais (de quem é motivo de muito orgulho) valorizado pelos parentes, pelos vizinhos, admirado pelas garotas (ou garotos).

Comparemos nosso amiguinho com o estudante de quinze ou dezesseis anos que virá a ser médico, dentista ou advogado.

Veremos quase nenhuma diferença.

É isso mesmo. Na origem, são todos iguais. Têm o mesmo perfil, a mesma história, o mesmo rendimento. Todos são brilhantes e bem sucedidos.

Vem o vestibular. Ingressa, cada qual, na faculdade que escolheu... E é aí que as diferenças começam a aparecer. Os estudantes de medicina e de odontologia são enquadrados em um ambiente novo, com pessoas que se vestem de uma maneira diferente, se comportam de uma maneira diferente e que estabelecem uma identidade visual (e, por decorrência, uma identidade psicológica) com a atividade profissional que irão exercer alguns anos depois.

Os estudantes de direito, já nos primeiros meses de escola convivem com professores que vêm para as aulas de terno, gravata, sapato social, barba feita ou bem cuidada. E o mais interessante: aqueles senhores e senhoras respeitáveis, bem vestidos e de fina educação (os professores), tratam os seus alunos por “senhor” ou “senhora”, com toda a fineza e educação que a prática profissional recomenda. E estimulam seus alunos a acreditar e se convencerem de que são superiores. Que estão se preparando para “falar com o Estado” (privilégio que não é concedido a nenhum outro profissional...). Enfim, aprendem que precisam respeitar os outros, mas aprendem, antes de tudo, que precisam exigir respeito para si.

Nos últimos anos de faculdade, estudantes de odontologia e medicina já se vestem como se médicos ou dentistas fossem. Freqüentam clínicas e atuam como profissionais na área da saúde. Assumem, enfim, um ou dois anos antes de terminada a faculdade, todo um comportamento típico de médico. De dentista.

Os estudantes de Direito, por sua vez, a partir da Segunda metade do curso, já se vestem como advogados (roupa social, sapato, eventualmente gravata e um terno ou blazer...). Mantém com os seus professores e com os seus colegas um comportamento e um vocabulário apropriados para as lides jurídicas. E, o mais importante: são tratados, pelos seus professores, como Doutor. (Dr. Fulano, termine seu relatório até a próxima aula. Dr. Sicrano, esteja preparado para a prova final, na sexta-feira.). Apesar de ainda não terem concluído o curso.

Os estudantes de engenharia, ao contrário, a partir do início do curso, a única diferença que eles conseguem perceber na faculdade, em relação ao ensino médio é o grau de dificuldade (que simplesmente quintuplica!).

Não existe nenhum estímulo a um comportamento novo, nenhuma referência, um exemplo positivo de comportamento. Nenhuma motivação para um desenvolvimento psicológico alternativo. Nenhum elemento que interfira na formação do profissional do ponto de vista da sua imagem física composta de aspectos visuais e comportamentais. A vida social, no ambiente da faculdade, é muito restrita, quando não inexistente.

Além do mais, a faculdade entra na vida desses jovens como um elemento de ruptura. Os alunos são colocados em uma condição a que eles não estavam acostumados. Estavam acostumados a tirar notas máximas com a maior facilidade e, de repente, passam a sofrer e ter grandes dificuldades para obter notas mínimas ou médias. Deixam de ser respeitados pelos seus professores que se tornam distantes e autoritários e perdem a admiração dos colegas que estão todos desesperados tentando se salvar de uma coisa que ainda não estão entendendo direito.

Não que as faculdades de medicina, direito ou odontologia sejam fáceis. Ocorre que lá os estudantes têm compensações psicológicas que os estudantes de engenharia não têm. Essas faculdades, por diversos mecanismos, inexistentes nas escolas de engenharia, dão continuidade ao amadurecimento psicológico e social do futuro profissional. E, com isto, mantêm em alta a motivação e auto-estima dos seus estudantes.

Na engenharia não existe nenhum processo de acompanhamento psicológico para aquele estudante desesperado que teve a sua carreira de sucesso estudantil subitamente interrompida (mesmo os alunos que continuam conquistando notas altas, acabam sentindo a falta do aplauso dos colegas, do respeito dos professores e da admiração coletiva). E não existe ninguém para explicar o que está acontecendo. Ninguém para dizer a este estudante que ele não é tão inepto ou incapaz como, algumas vezes os professores parecem querer provar.

É quase geral, por parte dos professores, nas escolas de engenharia, a manifestação desnecessária de superioridade intelectual, o exercício gratuito de poder e o terrorismo psicológico.

E o estudante, que entrou na faculdade no auge positivo da auto-estima, vai recebendo, ao longo de cinco anos, das mais variadas formas, uma única mensagem: “Você não é tão bom quanto você pensava que fosse !”.

Ao contrário dos estudantes de direito, medicina ou odontologia, que têm como professores, profissionais que atuam no dia-a-dia de suas atividades, os estudantes de engenharia passam cinco anos submetidos aos rigores (e, em alguns casos, caprichos) de engenheiros que não atuam, profissionalmente, como engenheiros e sim como professores, e que, portanto, não têm a vivência da atividade profissional e não têm a ciência ou a consciência das relações comerciais que vão definir o sucesso ou o fracasso dos profissionais que eles estão formando.

Como resultado disso, ao final de cinco anos, o estudante de engenharia se transforma em um engenheiro. E este engenheiro é completamente desprovido de auto-estima, de respeito próprio, de prazer profissional ou de consciência de mercado. Na metade do último semestre da faculdade, dois meses antes de receber o diploma e ser entregue aos leões do mercado, o estudante de engenharia ainda é tratado como mero es-tu-dan-te.

Em momento algum, durante a faculdade, o estudante de engenharia é tratado como engenheiro, em momento algum, durante esses cinco anos, a escola propicia a percepção da mudança de condição de estudante para a condição de profissional.

Estudantes de direito, medicina e odontologia, ao contrário, muito antes do fim da faculdade já têm uma noção razoavelmente clara das dificuldades do exercício profissional que eles irão enfrentar. Com isso vão desenvolvendo mecanismos psicológicos de defesa e saem da faculdade com maior grau de segurança. Entram no mercado profissional de cabeça erguida, com uma consciência de valor. E com todo o processo de construção da imagem profissional em andamento. Estudantes de engenharia não são estimulados a se vestir bem, nem a ter preocupações com técnicas de comunicação ou relacionamento social ou de exercício intelectual não linear. Com isso acabam não desenvolvendo habilidades gerenciais ou de relacionamento com o mercado.

Esta é uma das razões pelas quais as organizações de engenharia são, quase sempre, extremamente burocráticas e conservadoras.

Engenheiros (ao contrário de advogados, médicos e dentistas) não comandam seu ambiente de trabalho. Por mais que detenham o conhecimento e a técnica, os engenheiros são, via de regra, pouco influentes em relação ao produto final, seja uma construção, uma instalação, um empreendimento complexo ou um processo produtivo.

O mais lamentável é que os engenheiros, via de regra, só vão perceber os resultados da negligência com a imagem física, a comunicação não-verbal e o comportamento no mercado, depois de já terem acumulado muitas perdas desnecessárias (algumas das quais, infelizmente, irreversíveis).

E qual é a utilidade desse discurso? Qual a importância de se colocar este tema no papel? Porque tornar pública esta opinião, que, com certeza aborrecerá alguns segmentos? Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que a simples leitura deste ensaio leve um diretor de escola de engenharia, um professor, um estudante ou um profissional de engenharia a alterar o seu comportamento. O que se espera é que essas pessoas, a quem o texto é dedicado, tenham um momento de reflexão. E que a esse momento de reflexão se siga uma atitude. E que essa atitude tenha como objetivo dar um futuro melhor para a engenharia no Brasil.

A engenharia depende dos engenheiros. E os engenheiros começam a ser formados aos quinze ou dezesseis anos, ainda no ensino médio.

Eu ainda acho, como sempre achei, que o conhecimento científico que é transmitido aos estudantes durante a faculdade de engenharia é fundamental. E que o valor da engenharia está sustentado na capacidade intelectual e técnica dos seus profissionais.

No entanto, vejo como importantíssima uma nova visão, nesse processo de formação do engenheiro, que leve em consideração todo o relacionamento social dos estudantes entre si e com os seus professores. É importante que, aos estudantes, seja transmitida uma visão mais clara das relações comerciais que eles enfrentarão na vida profissional, seja na condição de profissionais autônomos, empresários ou empregados em alguma empresa.

Em qualquer um desses casos as relações sociais são elementos definitivos para o sucesso. É um “detalhe” que faz toda a diferença.

O estudante chega ao curso de Engenharia cheio de sonhos com a auto-estima elevada, transpirando confiança e auto-respeito. É muito triste que, dez ou quinze anos depois esse potencial tenha se transformado em um sujeito cabisbaixo, sem consciência de valor, destituído de auto-estima e respeito próprio. Abrindo mão da sua natural vocação de agente do desenvolvimento para ser mero instrumento de trabalho para terceiros.

Na Escola de Engenharia o engenheiro precisa ser “construído” para ser um vencedor. Precisa ser estimulado a acreditar no seu potencial. Confiar na sua inteligência. E, acima de tudo, precisa aprender a importância de manter a cabeça erguida.

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17 comentários:

Fabricio disse...

Apoiadíssimo! Lá na faculdade fico muito triste ao ouvir comentários do tipo "quero que se foda, eu faço oq meu chefe mandar".
Nós, profissionais tão importantes para a sociedade, não podemos nós sujeitar a sermos apenas máquinas de fazer dinheiro. A engenharia vai muito além disso. Com ela a qualidade de vida das pessoas melhora, a tecnologia se desenvolve e um país progride. Futuros engenheiros, se ferrando nas dificílimas matérias, não se desanimem! Ousem sempre acreditar que com esforço e dedicação chegaremos longe e mudaremos o mundo pra melhor.
Abraços

Joao Pedro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulistana disse...

Nossa, muito bom o texto! Quer dizer...bom pq ele é verídico..e ruim pelo mesmo motivo...
Realmente quem faz engenharia tem que gostar muito, pq a faculdade e os professores não servem de incentivo .. salvo alguns!

gabriel disse...

Cara, concordo em tudo transmitido nesse texto. É realemnte uma facada na sua auto-estima você virar noites estudando para passar medianamente e ainda ouvir um professor dizer que você não vale nada, porque tem nota mediana. Isso quando não chega a ser revoltante! E olhar pra os lados e não ver ninguem pra te dizer o contrário. É muito ruim mesmo. A qualidade do profissional não é apenas medida pelo seu CRE ao final do curso, a parte psicológica também conta: o profissional que tem confiança em si mesmo tem um melhor desempenho em seu trabalho, isso é fato!

Édipo disse...

Concordo com tudo que foi dito no texto. Mas acho que por todo esse "sofrimento" que passamos é que os engenheiros, ao se formarem, (nao sei, ainda nao me formei) sentem-se superiores, pois tiveram que ralar muito mais que os demais (talvez seja impressão).

Não sei se todos ja conhecem, mas existe uma iniciativa de alunos, chamada empresa junior, que , na minha opiniao, supre toda essa necessidade que temos.
Na empresa junior temos a oportunidade de lidar com profissionais da área de igual pra igual, negociar projetos e gerir uma empresa sem nenhuma intereferencia de um profissional.
Faço parte da empresa junior de engenharia da UFRJ, Fluxo Consultoria, e acho que é uma experiência que devia ser vivenciada por todo graduando.
Fica ai minha dica.

Abraços

Beatriz disse...

Mesmo não estando cursando engenharia (mas pretendo!), eu pude perceber que tudo que foi dito ocorre mesmo! O engenheiro tem pouca valorização em nossa cultura, apesar de ser tão importante para a economia.
Só posso esperar ser uma engenheira de alta auto-estima e feliz..

Anônimo disse...

excelente texto

Dalvania disse...

Poxa... é exatamente tudo o que tá escrito aí O.o
Caraca... já no 1° periodo a gente se sente um lixo qdo repete o maldito Calculo I...
E ngm aparece pra dizer: "Calma, vai melhorar, periodo que vem vc estuda e passa com 10!". Eles só dizem: "Bem vindo à engenharia". u.u

Praquetantaletraprapostarumcomentario disse...

Passo por isso diariamente.
Isso é realmente o q acontece...

Mas fazer o que, o amor pela profissão nos move.

Anônimo disse...

Texto ridículo. Profissionais medíocres agem assim...

Humberto disse...

O grande problema é que os aluninhos do ens. med(íocre). acham que engenharia da computação só tem computador, eng. de produção é administrção, eng. civil forma pedreiros, eng de pesca, pescadores, ambiental, ambientalista...
Bem a lista vai por aí...
Somente conscientizando o aluno colegial (tou ficando velho!!!) é que se tem melhores alunos na faculdade, e olha que tem muito professor que incentiva, mas aluno de engenharia que não pretende se submeter ao cálculo, al, ga e afins que escolha design de moda ou pedagogia. Por favor, né! Mas o texto é bom, nos leva à reflexão.

Dani disse...

Me identifiquei com o texto pricipalmente qdo fala da baixa estima do estudante, a gente acaba se achando, e qse acreditando que somos "burros",devido a nota baixa em calculo. E que todo aquele brilho que tivemos durante os anos de estudos anteriores era puro engano. Porém o pior vem depois de formado, principalmente qdo se vai procurar emprego, e se demora pra encontrar, dai vc pensa, do que valeu tanta ferração....

Anônimo disse...

Fracassados tem baixa auto estima, os fracos aqueles que não tão nem ai com nada, se fodem no curso ai todos levam a fama...
Desconheço o autor do texto, mas ele deve ter pego algum engenheiro traçando a mulher dele...

Carlos César disse...

Anônimo disse...

Fracassados tem baixa auto estima, os fracos aqueles que não tão nem ai com nada, se fodem no curso ai todos levam a fama...
Desconheço o autor do texto, mas ele deve ter pego algum engenheiro traçando a mulher dele...


Caro senhor anônimo, se voce acha que o escritor pegou algum engenheiro traçando a mulher dele, imagino que algum outro engenheiro deve ter pego a sua também, porque para nao ter coragem de mostrar o proprio nome e dar a cara a bater isso pra mim é coisa de corno covarde.

isa disse...

Esse texto me fez pensar muito na minha situação,já que abdico do meu fds,durmo praticamente tarde todos os dias e ainda assim parece que não adianta muito... acho que o profissional da eng tem de ser mt forte para suportar todos os dias o desafio intelectual ,alem disso ser bastante etico e respeitar a capacidade dos colegas,ser sobretudo o esforçado e não o que se intitula inteligente...^^

Anônimo disse...

Ah, gente! Não vamos exagerar, né?! Concordo que engenharia é um dos cursos mais difíceis, que você tem que ralar pra caramba pra se formar e se sente mais burro mesmo (pelo aumento da dificuldade, os professores querendo te ferrar e tal). Mas vamos combinar que a galera da engenharia é uma das mais fanfarronas, não perde uma cervejinha... e apesar dos pesares os 5, 6 ou 10 anos que você estiver lá dentro vão SIM ser os melhores da vida!!
Muito bom o texto, valeu pela reflexão.
E boa sorte pra gente, engenheiros!

Anônimo disse...

lembre-se que você não é engenheiro, por enquanto só quer sê-lo! "nós engenheiros", ridículo